Monday, December 18, 2006

Tudo por um cavalo


Até ontem o Acre era só mais um tema de piada. Alguns duvidavam até mesmo da existência, Evo Morales falou que a Bolívia trocou o Acre por um cavalo, o piadista Diogo Mainard falou que queria o cavalo de volta. Pena que não ouvi nenhum comentário do Lula sobre o estado mais desprezado do Brasil. Agora a confusão só tende a aumentar. A Globo já anuncia sua superprodução que despejou quilos de atores, técnicos e equipamentos globais na selva. Todo mundo concorda que do Projac ao Acre há mais coisas interessantes para se mostrar do que do Arpoador ao Leblon, mas o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi esse interesse repentino sobre o Acre e sua história. No conforto anônimo da bloguesfera resolvi fazer um comentário da tal minissérie que ninguém viu ainda mais já “deu no New York Times”.
A maioria dos brasileiros não sabe e nem faz questão de saber sobre nossa política externa. A grande imprensa, que é toda pautada pelo New York Times nos assuntos internacionais, noticia muito mais sobre o Hamas e o Iraque do que qualquer outro assunto mais relevante para o Brasil. Quando Evo Morales colocou suas tropas nas portas da Petrobras e o presidente Lula fez que não era com ele, os Alexandres Garcia da imprensa botaram a boca no trombone. As críticas à política externa do governo Lula que vinham pipocando aqui e ali agora sim tinham um fato relativamente fácil de explicar ao povão, mas o Itamaraty foi cozinhando o acordo até as eleições e o fato perdeu força.
Tinha a curiosidade de saber quando foi escrita essa minissérie e apostaria um cavalo (esse mesmo que o Evo gosta de citar) que essa minissérie foi feita por encomenda. Essa minissérie pode render muitos ganchos para mostrar ao pessoal da poltrona como a Globo (ou quem quer que tenha feito a “encomenda”) acha que deveria ser nossa política externa. A astúcia do Barão do Rio Branco e a imagem de bandeirantes guerreiros lutando na selva podem ser usados para mostrar o quanto Lula foi fraco perante Evo Morales. É o jeito “global” de se fazer política: desinformação, ficção, história e espetáculo, tudo junto num caldeirão despejando entretenimento “neutro” na sua televisão.
A política externa independente, que teve como precursor o ex-ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, e é atualmente o norte de Celso Amorim, sempre foi motivo de ataques violentos por parte de setores da nossa elite que devem as calças ao capital internacional. Mas diferentemente da época do governo Jango, mudar essa diretriz não vai ser tarefa fácil. Para o desgosto dos entusiastas da Alca, a área para livre comércio até tumba já tem, como já bem disse o fanfarrão Chavez.
Agora falando do lado “entretenimento” da coisa, nos teasers que pipocam na programação fiquei muito bem impressionado. E terminando o post, fico pasmado com uma constatação incrível: Glória Perez fez alguma coisa que despertou meu interesse.

Monday, December 11, 2006

Sou mais Penélope



Em uma dessas “conversas de botequim” surgiu um tema interessante. Seria Audrey Hepburn a mulher mais bela de todos os tempos? É claro que essa afirmação não poderia ter vindo de um homem. Na verdade veio de uma coroa quase idosa. Discordei na hora mas admitindo que a bonequinha de luxo, como também é conhecida, tem seus atributos. Entre eles destaco um belo rosto, elegância e um olhar charmoso. Avaliando Audrey Hepburn é fácil chegar a conclusão que é uma mulher sem sal apesar de bela. É o tipo de mulher que só impressiona as outras mulheres. Pode ser que tenha feito muito sucesso entre os homens em sua época. Aposto que deveria ser a mulher à qual os homens adorariam ter como esposa para desfilar pelos salões e mostrar aos seus amigos como um objeto de status social. É por isso que sua sofisticação européia tem um visual que é mais agradável aos olhos do que a vulgaridade fashion de uma Barbie ou uma Paris Hilton, mas isso não a torna menos distante de ser uma "mulher-objeto".
Daí eu fiquei pensando qual seria meu exemplo de mulher admirável. A quantidade é abundante e pinçar uma entre tantas é tarefa interessante para os momentos a toa. O critério nessa escolha não poderia partir somente de atributos físicos. Para mim a atitude, a postura e a voz são fundamentais. Fica difícil por exemplo descolar o corpo escultural e a boca lasciva de Daniela Cicarelli de sua voz estridente e gritada, ou mesmo do conteúdo bossal de suas palavras. Eu prefiro as mulheres de verdade, mulheres com alguns “defeitos”. Um pouco de brejeirice não faz mal a ninguém. Assistindo o novo filme do Almdovar, Volver, achei um exemplo de mulher realmente atraente. Penélope Cruz arranca suspiros quando o diretor aponta sua câmera em ângulos para lá de sensuais. Além disso a latinidade tem tudo a ver com sensualidade. A elegância aristocrática de Audrey Hepburn é bobeira quando comparamos com Penélope soltando a voz apaixonadamente em uma música flamenca. Orgulhosa do seu decote, de suas cores e flores. Compare você mesmo.

Friday, December 01, 2006

As duas últimas "supostas" vítimas de Putin


*Parece o Andy Warhol mas é Anna Politkovskaya


*Alexander Litvinenko

Putin: O terrível



É meus amigos, Vladimir Putin, ex-coronel da KGB e atual presidente da Rússia, é um sujeito no mínimo perigoso. É certo que nada foi provado ligando diretamente seu nome as suas supostas vitimas, mas também, só se ele fosse muito estúpido para deixar rastros de suas ações secretas sendo o chefe do Kremlin e tendo todo o FSB (a.k.a. KGB) nas mãos. Suas táticas contra os tchetchenos são truculentas, e seus opositores são vítimas de assassinatos estranhos, envenenamentos e arapongagens. Mas os últimos três casos famosos não deixam nada a dever aos tempos de guerra fria.
Viktor Yushchenko atual presidente da Ucrânia foi envenenado em setembro de 2004 possivelmente pelo serviço secreto da Ucrânia (SBU) ou pelo FSB. Yushchenko é um liberal que defende uma aproximação do país com a OTAN e com o ocidente em detrimento dos vínculos com a Rússia. Putin não conseguiu impedir Yushchenko de chegar ao poder mas mostrou o que o país tem a perder se virar as costas à Russia. A pouco tempo o preço do gás vindo da Rússia para a Ucrânia subiu dramaticamente, um golpe para um país com um clima tão frio. A foto abaixo mostra Yushchenko antes e depois do envenenamento:


Anna Politkovskaya uma jornalista que denunciava os métodos “poucos convencionais” do FSB e de Moscou contra os tchetchenos em suas colunas no jornal Novaya Gazeta e em seus livros (o último é “Putin's Russia”) foi perseguida, ameaçada e envenenada, e finalmente morta a tiros em outubro de 2006 no elevador de seu prédio. Dimitry Muratov, editor do Novaya Gazeta, disse que Anna tinha um arquivo que incriminava um destacamento de segurança tchetcheno chamado Kadyrovites, leal ao primeiro ministro russo Ramzan Kadyrov, por tortura. A polícia russa apreendeu o computador e talvez a história nunca mais venha a público.
Alexandre Litvinenko, ex-agente do serviço secreto russo, é o autor do livro “Blowing up Russia: Terror from Within” no qual acusa o FSB de fomentar e ao mesmo tempo combater os paramilitares tchetechenos para desestimular pressões populares ou demandas por transparência e democracia. Litvinenko investigava também a morte de Anna Politkovskaya quando foi envenenado e morto neste mês com polônio. Segundo o jornal britânico Guardian esse polônio tinha uma concentração que só era possível de ser fabricada com o consentimento de países que dominam a tecnologia nuclear. Isso gera mais suspeitas em cima de Putin. Mas é sempre bom tomarmos um pouco de cuidado com essas conclusões já que desinformação faz parte do jogo entre os serviços secretos.
Apesar dessa avalanche de suspeitas muitos russos adoram o estilo “homem de gelo” de Putin que contrasta muito com o de Boris “Vodka” Yeltsin. Dia desses vi o DVD de Paul Macharney live in Red Square (Moscou). Foi impressionante ver o ex-Beatle branindo sua guitarra praticamente em cima do túmulo de Lênin. O velho empalhado deve ter chacoalhado bastante ao som de “Back in USSR”. Segundo o DVD, não foram os problemas macroeconômicos ou o capitalismo americano que derrotaram o regime soviético. “Foram os Beatles!” anuncia os russos que aparecem no documentário. As construções suntuosas de fomento a cultura, a música erudita e as artes plásticas contrastam com o rock operário dos garotos de Liverpool. Afinal a cultura deve vir do povo ou do Estado? Mas se o Estado representa o povo cabe ao Estado fomentar a “alta cultura”? O que é melhor o rock ou Bolshoi? Essas são algumas das questões levantadas pelo pretensioso DVD. E ainda aparece Putin na platéia sem esboçar uma reação na apresentação de Sir. Paul Macharney. Esse é o estilo Putin, quem ri por último é quem rir melhor. UaahaaaaUaaaahaaaaa!

Monday, November 27, 2006

Desbunde 00: Mais felizes do que pinto no lixo



Esse blog ficou largado as traças durante muito tempo. É hora de tocar o barco e de botar o bloco na rua novamente. Não, ainda não é carnaval mas o clima momesco não tardará a se proliferar. No último post eu disse que ia comentar a entrevista de Darc da Costa mas não vou mais, o timing passou. Vou comentar sobre um assunto mais light: rock n' roll, mp3 e o desbunde tecnológico.
Fustigado pela leitura da última Bizz e pela aquisição do meu novo brinquedo, um mp3 player, fiquei pensando e comparando o revolução comportamental do final da década de 70 (Dunas da Gal + psicodelia + drogas + revolução sexual + guitarras + tangas & nudez + etc & tal) com o nosso período atual onde cada um escuta o que quer, produz replica e reproduz música, filmes e texto legalmente ou ilegalmente, tanto faz. Na década 00 está tudo fora do controle e como diria Gal: “tudo legal”. Enquanto os executivos perdem o pouco cabelo que lhes restam tentando bolar e tramar maneiras de conter e controlar essa orgia de troca de arquivos o povo deita e rola. É um desbunde careta mas altamente subversivo porque as pessoas podem consumir o quanto conseguirem de música, filmes e textos sem expor o bolso. É roubo, não há duvidas sobre isso, a legislação é clara em defender os donos dos direitos autorais. Mas o fato de ser roubo ou não pouco importa. Os executivos e gravadoras podem reclamar o quanto quiseram mas já está provado que esse modelo de negócio de vender discos acabou. Essas pessoas que relutam em encarar a realidade brigam uma guerra perdida. As leis de mercado só valem quando há controles e regras. Os liberais podem não gostar de pagar impostos mas necessitam do Estado para ter a garantia de que seus produtos só vão ser consumidos se houver uma contrapartida. Quando o controle fica mais caro do que o negócio pode gerar de lucro temos o fim do negócio. Essa é a situação atual do mercado fonográfico. O modelo exauriu-se e como ele foram-se os ídolos universais, as grandes vendagens e o consumo massificado.
O mercado clama por segmentação cabe agora aos magos de gestão encontrar formas criativas de explorar as oportunidades que se abrem. Lutar contra os “piratas virtuais” é coisa para Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Saturday, April 01, 2006

Darc da Costa e a Integração Sulamericana

Muito tempo sem postar e os poucos leitores que aqui pousavam devem ter me abandonado de vez, exceto pela minha Patroa hehee.
Segue abaixo uma entrevista com o engenheiro Darc da Costa que saiu no Valor Econômico. Depois eu vou fazer uns comentários sobre isso. Boa Leitura.


Para Darc da Costa, saída é o mercado continental Consultor de Chávez quer megaestado sul-americano

Vera Saavedra Durão e Cláudia Schüffner Do Rio

Darc da Costa, ex-vice presidente do BNDES, é autor de estudo sobre a integração continental que virou livro de cabeceira do presidente Hugo Chávez
O engenheiro civil Darc Costa, que ganhou notoriedade nos meios empresariais como vice-presidente do BNDES na gestão de Carlos Lessa, ex-professor da Escola Superior de Guerra (ESG), sempre acalentou o sonho bolivariano de integrar o continente sul-americano. Buscou implementá-lo quando esteve à frente do banco. Em 2003, fez dezenas de viagens à Argentina, Bolívia, Uruguai, Venezuela. Nesses países estavam sendo tocados projetos de empresas brasileiras financiados pelo BNDES.
Em uma dessas visitas, jantando em companhia do embaixador brasileiro em Caracas, Ruy Nogueira, foi reconhecido por ex-alunos venezuelanos da ESG, militares que ocupavam na época altos cargos na administração do presidente Hugo Chávez.
Convidado por um ex-aluno, o general Martins de Mendoza, chefe da casa de despachos do presidente venezuelano, Darc teve com Chávez uma conversa longa sobre a questão da integração. Para surpresa dele, seu livro "Estratégia Nacional", no qual discorre sobre o destino do Brasil no processo de integração continental e no mundo, virou livro de cabeceira de Chávez, de quem se tornou próximo e para quem hoje dá assessoria informal.
Costa diz que seus contratos como consultor de empresas brasileiras, argentinas e venezuelanas, privadas e estatais, são confidenciais. Mas nega que esteja dando consultoria para a PDVSA, como garantem outras fontes. Nesse processo, ele também se aproximou do governo argentino do presidente Néstor Kirchner.
O controvertido projeto do gasoduto Venezuela-Brasil é a "menina dos olhos" do ex-professor da ESG. Ele informa que o gasoduto que vai rasgar a Amazônia e desembocar na Argentina foi idéia dele e do diretor da área de gás da Petrobras, Ildo Sauer. Em agosto de 2005, Darc apresentou o projeto a Chávez, que entendeu que a obra representava a integração energética da América do Sul.
Para o ex-presidente do BNDES, costurar o continente com obras de infra-estrutura, e interligando culturas, levará a integração de um único mercado capaz de competir com o mundo em igualdade de condições. "Em um mundo globalizado, sozinhos não somos nada, mas juntos sempre iremos a algum lugar". A seguir, trechos da entrevista de Darc Costa ao Valor, concedida em seu escritório no Rio:
Valor: Como o sr. iniciou contatos com o presidente Chávez?
Darc Costa: Vários colegas de turma dele foram meus alunos na Escola Superior de Guerra. Quando eu saí da ESG, onde era coordenador do centro de estudos, e fui para o BNDES, a primeira vez que viajei à Venezuela, saiu uma notinha em um jornal dizendo que eu estava em Caracas. Um dos meus ex-alunos, que era chefe da casa de despachos do Chávez, equivalente à Casa Civil, o general Martins de Mendoza, me procurou e me convidou para ir no dia seguinte ao Palácio Miraflores para que o Chávez me conhecesse. Conversei longamente com Chávez. Isso foi em 2003. Enquanto estive no BNDES, muitas vezes quando ia à Caracas me encontrava com ele. Na ocasião, a Odebrecht tinha obras lá na Venezuela - linhas de metrô e uma ponte sobre o rio Orenoco.
Valor: Como foi sua primeira conversa com Chávez?
Darc: Nós conversamos sobre integração. O Chavez é integracionista. Ele pegou meu livro "Estratégia Nacional", mandou fazer uma versão em espanhol e o tornou seu livro de cabeceira. Ele continua a distribuir o livro.
Valor: E a idéia do gasoduto Venezuela-Brasil? Foi do Chávez?
Darc: Não. A idéia foi minha e da Petrobras. É uma parceria com o Ildo Sauer. Surgiu quando eu estava saindo do banco. Financiamos o gasoduto que a Petrobras ia construir na Argentina e percebemos que o país não tinha gás suficiente para bancar a matriz energética que tinha planejado para os próximos 50 anos. Mudar uma matriz energética é um negócio complexo. A Bolívia não era a solução como se imaginava, e a Argentina havia vendido para o Uruguai e para o Chile um gás que não era suficiente, nem para ela própria, nem para bancar o desenvolvimento do Chile e do Uruguai. Eles (os argentinos) tinham criado uma crise diplomática séria com o Chile e o Uruguai naquela época. A solução do gasoduto argentino era uma solução paliativa. Não resolvia o problema. A única saída era trazer gás de outro lugar. E o lugar mais provável era Venezuela. Em abril passado, um diretor da PDVSA em visita ao país, disse ao Sauer que tinha gás suficiente para atender ao Brasil a custo compatível. Houve um congresso da USP em São Paulo e o Sauer me convidou para apresentar o projeto do gasoduto. Eu levei o projeto para o Chávez, pois ele iria entender que representava a integração energética da América do Sul.
Valor: Quando o sr. levou o projeto para o presidente Chávez?
Darc: Em agosto de 2005. Logo depois, disse que tinha intenção de construir o gasoduto. Em novembro, firmou contrato com Kirchner. O Lula aderiu em dezembro. O projeto do gasoduto estrutura o setor de energia na América do Sul. O projeto não pode transitar em área sísmica. Por isso tem de passar pelo Brasil. Ele muda o Brasil, porque cria as condições de desenvolver todo o Norte e o Nordeste.
Valor: Foi a partir desse projeto que o sr. começou a trabalhar para Chávez?
Darc: Eu não trabalho para o Chávez.
Valor: O sr. não é consultor dele?
Darc: Dou para ele uma assessoria informal. Ele me liga, me pergunta umas coisas...
A única coisa que funciona direito no governo brasileiro é a política externa, que, na prática, é integracionista "
Valor: Após a saída do BNDES, como ficou sua vida profissional?
Darc: Faço planejamento estratégico, tenho contratos confidenciais com empresas e governos...
Valor: Inclusive com a PDVSA...
Darc: Não com a PDVSA, certamente. Tenho contratos com empresas brasileiras, argentinas, venezuelanas. Só que não posso dizer quais são.
Valor: Além do projeto do gasoduto, em quais outros o sr. está envolvido?
Darc: Em muito outros. Projetos de energia elétrica binacionais. Tem na Argentina com o Brasil, tem no Brasil com outros países. Na Argentina, tem o projeto da hidrelétrica de Garabi, que estou desenvolvendo com uma empresa do governo argentino. No Brasil, estou avaliando projetos de interesse dos russos na área de energia, é basicamente gás. Os russos querem atuar no mercado brasileiro como transportadores e distribuidores de gás, além de participar na construção de gasodutos. O meu trabalho é focado na integração sul-americana, que passa por infra-estrutura. A minha empresa, a DLC - Desenvolvimento, Logística e Cenários, foi montada com este objetivo, buscar oportunidades de projetos de integração no mercado sul americano.
Valor: Sua relação com o governo Kirchner também é de assessoria informal? Recentemente o sr. esteve na Argentina, não?
Darc: Também é assessoria informal. Desta vez conversamos sobre o setor de telecomunicações. O Brasil precisa ter uma política de telecomunicações conjugada com a Argentina, com a América do Sul. Porque assim conquista escala. Não pode ter uma política isolada. As empresas são mais ou menos as mesmas, mas as políticas são diferentes para cada país. A escolha do modelo de TV digital tem de ser casada com os demais países da América do Sul.
Valor: O sr. também está voltado para TV digital?
Darc: Informalmente. Qualquer que seja a política, tem que ser praticada no âmbito de um projeto de integração. Não se pode ficar isolado na hora de optar por tecnologias.
Valor: O governo brasileiro tem o discurso de integração, mas realmente trabalha neste sentido?
Darc: A única coisa que funciona direito no governo brasileiro hoje é a política externa, que é integracionista na prática. Mas esbarra com problemas sérios. A política externa do Itamaraty sofre contestações na Fazenda e no Ministério do Desenvolvimento.
Valor: Contestações em função de ser multilateralista e integracionista?
Darc: Por ser multilateralista, e porque privilegia o espaço da integração em detrimento do discurso americano. Parcela do nosso governo está atrelado ao discurso americano. O governo brasileiro tem uma simbiose entre o neoliberalismo e o intervencionismo. Os governos da Argentina e da Venezuela resolveram isso. São intervencionistas. Intervêm na economia. Não têm nada de neoliberal. E o resultado é que crescem a 10%. Aí vão dizer, é porque tiveram crise. A crise acabou em 2004.
Valor: A crise na Argentina está longe de acabar...
Darc: O discurso que vai a colapso daqui a pouco ainda não foi.
Valor: Por que o Brasil vai resolver o problema de gás argentino fazendo um gasoduto que rasga a Amazônia ?
Darc: Nós vamos resolver o nosso problema. O gasoduto será muito importante para a industrialização do Nordeste e do Norte. O resultado da política externa do Itamaraty é notável, porque nós expandimos nossas relações comerciais com a América do Sul. O foco da expansão comercial foi a América do Sul é aqui que nós vendemos manufaturados. No resto do mundo, nós somos exportadores de commodities. É na América do Sul que somos competitivos. O discurso que ouvimos é que devíamos mudar isso, e continuar atrelados ao processo de liberalização de mercados. Nenhum país que prega isso pratica liberalização de mercados. Qual o país no mundo que faz isso? Nenhum.
A saída é nos integrarmos. Separados não vamos a lugar nenhum. Juntos podemos ir a algum lugar, não sei qual "
Valor: As divergências dentro do governo Lula estão atrapalhando a integração?
Darc: Vou dar um exemplo. Quando o governo Kirchner resolveu confrontar o FMI, foi tratado no Brasil como se estivesse cometendo crime completo, como se a Inglaterra nunca tivesse feito moratória, e os EUA não tivessem feito nem uma moratória na vida. O governo Lagos (Chile) apoiou, mas o Lula sumiu. O Kirchner ficou uma fera com isso durante um ano e meio. Agora, o gasoduto Venezuela-Brasil, que desemboca na Argentina, está mudando esta relação. O problema é sério. Quando você tem uma política externa que caminha para um lado, e um discurso econômico interno que caminha para o outro, essa esquizofrenia se materializa nos resultados.
Valor: E a atuação da Petrobras isolada nesses países, também não cria problemas?
Darc: Cria um problema sério. A Petrobras se comportava nesses países como se fosse uma multinacional do petróleo. Não se comportava como se fosse uma empresa brasileira, do Estado brasileiro, operando nesses mercados. O que exige dela uma relação diferenciada com esses países. Ela não pode ter a mesma relação que uma Total (petroleira francesa privada). Ela não é uma empresa de mercado. A Petrobras, apesar de se dizer empresa de mercado, tem mais de 50% do capital de controle na mão do Estado brasileiro.
Valor: Por causa disso tem que adotar comportamento de relações públicas, sem se preocupar com resultados?
Darc: Ela tem de ter um comportamento atrelado à política externa do Brasil. Ela não pode ter sua própria política. Porque é uma empresa de Estado. Aliás, qualquer empresa de Estado em operação no mundo leva em consideração isso. Aliás, as empresas privadas levam em consideração isso. Não operam desarticuladas dos Estados nacionais. Nenhuma empresa americana opera no Brasil sem levar suas questões para o governo americano.
Valor: Quais foram as consequências da atuação da Petrobras como multinacional na América do Sul?
Darc: Foram complicadas na Argentina, na Bolívia. Agora é que estão se estruturando, porque ela está operando de acordo com os interesses articulados pelo Estado. No início do governo Lula, no conselho de administração da Petrobras argentina havia um membro amicíssimo do Meném. E já estávamos no governo Kirchner.
Valor: O que é esta integração latino-americana do ponto de vista macro?
Darc: No mundo de hoje não existe espaço para se operar com pequenos países. A tecnologia exige escala. Tem que ter mercado para poder desenvolver tecnologia. Qual a razão do sucesso da China e da Índia que ninguém fala? É o fato de que têm mercado. Um mercado potencial enorme, uma vantagem comparativa populacional em relação ao resto. As pessoas não conseguem entender isso.
Valor: E como é que isso se vincula à questão da integração?
Darc: Para aspirarmos a ser centro, temos que nos integrar. Apesar de o Brasil ser um país com enorme potencial, ter uma população de 185 milhões de pessoas, um mercado dessa dimensão e um território de 8,5 milhões de metros quadrados, o país ainda não tem capacidade de sozinho articular um projeto capaz de levá-lo para o centro. Os demais países da América do Sul, nem se fala. A única saída é nos integrarmos. Separados não vamos a lugar nenhum. Juntos podemos ir a algum lugar, não sei qual.
Valor: Há uma reação dos governos mais à direita a essas democracias de esquerda recém-instaladas na América Latina. Pode haver uma reação americana?
Darc: A questão americana é outra. O projeto neoliberal traçado para a América Latina fracassou. Os resultados na América do Sul mostram isso nos últimos anos. Onde você observa picos de crescimento hoje é nos espaços onde a doutrina americana foi contestada. É na Venezuela, que foi a maior taxa de crescimento do mundo ano passado, e na Argentina, que é a terceira. E o modelo chinês, que é o modelo de crescimento mais exitoso no mundo de hoje, é o modelo claramente contestador dos princípios do neoliberalismo.
Valor: O que visa essa integração?
Darc: A criação de um único mercado que seja capaz de competir com o mundo em igualdade de condições.
Valor: A posição de Evo Morales com relação à Petrobras e outras petroleiras não complica um projeto de integração?
Darc: Eu não acredito em posições de competição, acredito em cooperação. Mas vamos partir da premissa que o Adam Smith estivesse certo. Que os liberais de origem (do início do século XX) estivessem certos, e que cada um cuidasse de seu interesse da forma mais egoísta possível, que há uma mão invisível que tudo organiza e tudo estrutura, que faz com que as coisas avancem. Este é o discurso deles. É o discurso do Adam Smith. É uma visão protestante. Os Estados nacionais vivem em estado de natureza. Não há um Leviatã que os organize. O que estou querendo é dizer é que na América do Sul trabalhamos para criar um megaestado, um Leviatã que nos organize, de tal forma que a Bolívia vai entender que os interesses da Bolívia não são exclusivamente interesses da Bolívia, mas da América do Sul.

Sunday, March 12, 2006

Carta aberta à revista Carta Capital

Carta eviada à revista Carta Capital em resposta a reportagem "O Veneno da Cascavel" da revista Carta Capital de 15 de março de 2006.

O calibre do canhão é o que menos mete medo

Concordo que a reação do exército seja desproporcional ao feito dos criminosos como propriamente afirma o jornalista Mauricio Dias. Discordo, porém que seja um equívoco ou despautério das forças armadas colocar um grande efetivo em busca de suas armas roubadas. O exército não pode e nem deve ficar inerte enquanto criminosos cada vez mais ousados furtam quartéis. Há legitimidade moral e constitucional para a ação, que deve ser desproporcional mesmo, afinal estamos falando de forças legais contra grupos criminosos. Se as forças entre ambos se equivalessem o Brasil viraria uma Colômbia definitivamente. A situação precária em que se encontram paióis e armazéns com material bélico não desmerece a reação assimétrica do Comando Militar do Leste. Claro que é necessário rever procedimentos e realizar investimentos na guarda de armas, mas discordo que uma reação imediata deveria ser descartada. O exército tem demonstrado com competência que é possível cercar o morro não com o intuito de disparar a esmo contra bandoleiros que se movem entre milhares de inocentes. Ao contrário disso o intuito tem sido infligir uma punição por asfixia do comércio de ilícitos e mapear áreas de risco até que as armas apareçam ou até que o prejuízo ao tráfico seja grande o suficiente para inibir que ações do gênero se repitam.
Concordo que forças militares não devem substituir a polícia na segurança do Rio de Janeiro, mas acredito que seja possível um maior intercâmbio entre forças policiais e as Forças Armadas para coibir a criminalidade. No caso atual uma provocação direta dos criminosos merece uma reação direta das Forças Armadas pois no meu entender trata-se de um ato de guerra e para isso o exército deve estar pronto.
Para quem ainda não acordou digo que o Rio de Janeiro já está em guerra e o direito de ir e vir dos cidadãos tanto do morro quanto do asfalto já foram aviltados há muito. Revistas freqüentes são incomodo mínimo se comparados com os desmandos dos traficantes. Quanto ao Urutu que mirou o morro da Mangueira vejo como um retrato infeliz visto que o blindado deve ser útil de alguma forma, mesmo que seja como um escudo. O fato de ele estar apontado para o morro pode ter uma conotação sociológica de conflito de classe, mas se os tiros estão vindo de cima seria ridículo apontar para o asfalto. O canhão não vai explodir nenhum barraco e é bobagem chamar de conflito de classe uma guerra que flagela a todos. Existem consumidores, traficantes e criminosos em todas as classes e as armas estão apontadas em todas as direções. Com certeza o calibre do canhão é o que menos mete medo.

Saturday, March 11, 2006

Boas Novas


A Rádio Oi que comprou a Radio Cidade (102,9) adquiriu o "passe" do programa Ronca Ronca. A estréia na nova rádio está marcada para dia 21 de março, terça feira às 22:00hs. O programa capitaneado por Maurício Valladares tem uma legião de fãs que estão comemorando o retorno do Ronquinha em clima de vitória em Copa do Mundo. Com isso a Oi ganhou prestígio com muita gente e passa a dividir com a Tim, patrocinadora do Tim Festival, as beneces de serem as empresas que melhor sabem investir em música.
A festa de comemoração já está marcada para o dia 24 desse mês no Teatro Odisséia na Lapa.
Cheers!

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