Muito tempo sem postar e os poucos leitores que aqui pousavam devem ter me abandonado de vez, exceto pela minha Patroa hehee.
Segue abaixo uma entrevista com o engenheiro Darc da Costa que saiu no Valor Econômico. Depois eu vou fazer uns comentários sobre isso. Boa Leitura.
Para Darc da Costa, saída é o mercado continental Consultor de Chávez quer megaestado sul-americano
Vera Saavedra Durão e Cláudia Schüffner Do Rio
Darc da Costa, ex-vice presidente do BNDES, é autor de estudo sobre a integração continental que virou livro de cabeceira do presidente Hugo Chávez
O engenheiro civil Darc Costa, que ganhou notoriedade nos meios empresariais como vice-presidente do BNDES na gestão de Carlos Lessa, ex-professor da Escola Superior de Guerra (ESG), sempre acalentou o sonho bolivariano de integrar o continente sul-americano. Buscou implementá-lo quando esteve à frente do banco. Em 2003, fez dezenas de viagens à Argentina, Bolívia, Uruguai, Venezuela. Nesses países estavam sendo tocados projetos de empresas brasileiras financiados pelo BNDES.
Em uma dessas visitas, jantando em companhia do embaixador brasileiro em Caracas, Ruy Nogueira, foi reconhecido por ex-alunos venezuelanos da ESG, militares que ocupavam na época altos cargos na administração do presidente Hugo Chávez.
Convidado por um ex-aluno, o general Martins de Mendoza, chefe da casa de despachos do presidente venezuelano, Darc teve com Chávez uma conversa longa sobre a questão da integração. Para surpresa dele, seu livro "Estratégia Nacional", no qual discorre sobre o destino do Brasil no processo de integração continental e no mundo, virou livro de cabeceira de Chávez, de quem se tornou próximo e para quem hoje dá assessoria informal.
Costa diz que seus contratos como consultor de empresas brasileiras, argentinas e venezuelanas, privadas e estatais, são confidenciais. Mas nega que esteja dando consultoria para a PDVSA, como garantem outras fontes. Nesse processo, ele também se aproximou do governo argentino do presidente Néstor Kirchner.
O controvertido projeto do gasoduto Venezuela-Brasil é a "menina dos olhos" do ex-professor da ESG. Ele informa que o gasoduto que vai rasgar a Amazônia e desembocar na Argentina foi idéia dele e do diretor da área de gás da Petrobras, Ildo Sauer. Em agosto de 2005, Darc apresentou o projeto a Chávez, que entendeu que a obra representava a integração energética da América do Sul.
Para o ex-presidente do BNDES, costurar o continente com obras de infra-estrutura, e interligando culturas, levará a integração de um único mercado capaz de competir com o mundo em igualdade de condições. "Em um mundo globalizado, sozinhos não somos nada, mas juntos sempre iremos a algum lugar". A seguir, trechos da entrevista de Darc Costa ao Valor, concedida em seu escritório no Rio:
Valor: Como o sr. iniciou contatos com o presidente Chávez?
Darc Costa: Vários colegas de turma dele foram meus alunos na Escola Superior de Guerra. Quando eu saí da ESG, onde era coordenador do centro de estudos, e fui para o BNDES, a primeira vez que viajei à Venezuela, saiu uma notinha em um jornal dizendo que eu estava em Caracas. Um dos meus ex-alunos, que era chefe da casa de despachos do Chávez, equivalente à Casa Civil, o general Martins de Mendoza, me procurou e me convidou para ir no dia seguinte ao Palácio Miraflores para que o Chávez me conhecesse. Conversei longamente com Chávez. Isso foi em 2003. Enquanto estive no BNDES, muitas vezes quando ia à Caracas me encontrava com ele. Na ocasião, a Odebrecht tinha obras lá na Venezuela - linhas de metrô e uma ponte sobre o rio Orenoco.
Valor: Como foi sua primeira conversa com Chávez?
Darc: Nós conversamos sobre integração. O Chavez é integracionista. Ele pegou meu livro "Estratégia Nacional", mandou fazer uma versão em espanhol e o tornou seu livro de cabeceira. Ele continua a distribuir o livro.
Valor: E a idéia do gasoduto Venezuela-Brasil? Foi do Chávez?
Darc: Não. A idéia foi minha e da Petrobras. É uma parceria com o Ildo Sauer. Surgiu quando eu estava saindo do banco. Financiamos o gasoduto que a Petrobras ia construir na Argentina e percebemos que o país não tinha gás suficiente para bancar a matriz energética que tinha planejado para os próximos 50 anos. Mudar uma matriz energética é um negócio complexo. A Bolívia não era a solução como se imaginava, e a Argentina havia vendido para o Uruguai e para o Chile um gás que não era suficiente, nem para ela própria, nem para bancar o desenvolvimento do Chile e do Uruguai. Eles (os argentinos) tinham criado uma crise diplomática séria com o Chile e o Uruguai naquela época. A solução do gasoduto argentino era uma solução paliativa. Não resolvia o problema. A única saída era trazer gás de outro lugar. E o lugar mais provável era Venezuela. Em abril passado, um diretor da PDVSA em visita ao país, disse ao Sauer que tinha gás suficiente para atender ao Brasil a custo compatível. Houve um congresso da USP em São Paulo e o Sauer me convidou para apresentar o projeto do gasoduto. Eu levei o projeto para o Chávez, pois ele iria entender que representava a integração energética da América do Sul.
Valor: Quando o sr. levou o projeto para o presidente Chávez?
Darc: Em agosto de 2005. Logo depois, disse que tinha intenção de construir o gasoduto. Em novembro, firmou contrato com Kirchner. O Lula aderiu em dezembro. O projeto do gasoduto estrutura o setor de energia na América do Sul. O projeto não pode transitar em área sísmica. Por isso tem de passar pelo Brasil. Ele muda o Brasil, porque cria as condições de desenvolver todo o Norte e o Nordeste.
Valor: Foi a partir desse projeto que o sr. começou a trabalhar para Chávez?
Darc: Eu não trabalho para o Chávez.
Valor: O sr. não é consultor dele?
Darc: Dou para ele uma assessoria informal. Ele me liga, me pergunta umas coisas...
A única coisa que funciona direito no governo brasileiro é a política externa, que, na prática, é integracionista "
Valor: Após a saída do BNDES, como ficou sua vida profissional?
Darc: Faço planejamento estratégico, tenho contratos confidenciais com empresas e governos...
Valor: Inclusive com a PDVSA...
Darc: Não com a PDVSA, certamente. Tenho contratos com empresas brasileiras, argentinas, venezuelanas. Só que não posso dizer quais são.
Valor: Além do projeto do gasoduto, em quais outros o sr. está envolvido?
Darc: Em muito outros. Projetos de energia elétrica binacionais. Tem na Argentina com o Brasil, tem no Brasil com outros países. Na Argentina, tem o projeto da hidrelétrica de Garabi, que estou desenvolvendo com uma empresa do governo argentino. No Brasil, estou avaliando projetos de interesse dos russos na área de energia, é basicamente gás. Os russos querem atuar no mercado brasileiro como transportadores e distribuidores de gás, além de participar na construção de gasodutos. O meu trabalho é focado na integração sul-americana, que passa por infra-estrutura. A minha empresa, a DLC - Desenvolvimento, Logística e Cenários, foi montada com este objetivo, buscar oportunidades de projetos de integração no mercado sul americano.
Valor: Sua relação com o governo Kirchner também é de assessoria informal? Recentemente o sr. esteve na Argentina, não?
Darc: Também é assessoria informal. Desta vez conversamos sobre o setor de telecomunicações. O Brasil precisa ter uma política de telecomunicações conjugada com a Argentina, com a América do Sul. Porque assim conquista escala. Não pode ter uma política isolada. As empresas são mais ou menos as mesmas, mas as políticas são diferentes para cada país. A escolha do modelo de TV digital tem de ser casada com os demais países da América do Sul.
Valor: O sr. também está voltado para TV digital?
Darc: Informalmente. Qualquer que seja a política, tem que ser praticada no âmbito de um projeto de integração. Não se pode ficar isolado na hora de optar por tecnologias.
Valor: O governo brasileiro tem o discurso de integração, mas realmente trabalha neste sentido?
Darc: A única coisa que funciona direito no governo brasileiro hoje é a política externa, que é integracionista na prática. Mas esbarra com problemas sérios. A política externa do Itamaraty sofre contestações na Fazenda e no Ministério do Desenvolvimento.
Valor: Contestações em função de ser multilateralista e integracionista?
Darc: Por ser multilateralista, e porque privilegia o espaço da integração em detrimento do discurso americano. Parcela do nosso governo está atrelado ao discurso americano. O governo brasileiro tem uma simbiose entre o neoliberalismo e o intervencionismo. Os governos da Argentina e da Venezuela resolveram isso. São intervencionistas. Intervêm na economia. Não têm nada de neoliberal. E o resultado é que crescem a 10%. Aí vão dizer, é porque tiveram crise. A crise acabou em 2004.
Valor: A crise na Argentina está longe de acabar...
Darc: O discurso que vai a colapso daqui a pouco ainda não foi.
Valor: Por que o Brasil vai resolver o problema de gás argentino fazendo um gasoduto que rasga a Amazônia ?
Darc: Nós vamos resolver o nosso problema. O gasoduto será muito importante para a industrialização do Nordeste e do Norte. O resultado da política externa do Itamaraty é notável, porque nós expandimos nossas relações comerciais com a América do Sul. O foco da expansão comercial foi a América do Sul é aqui que nós vendemos manufaturados. No resto do mundo, nós somos exportadores de commodities. É na América do Sul que somos competitivos. O discurso que ouvimos é que devíamos mudar isso, e continuar atrelados ao processo de liberalização de mercados. Nenhum país que prega isso pratica liberalização de mercados. Qual o país no mundo que faz isso? Nenhum.
A saída é nos integrarmos. Separados não vamos a lugar nenhum. Juntos podemos ir a algum lugar, não sei qual "
Valor: As divergências dentro do governo Lula estão atrapalhando a integração?
Darc: Vou dar um exemplo. Quando o governo Kirchner resolveu confrontar o FMI, foi tratado no Brasil como se estivesse cometendo crime completo, como se a Inglaterra nunca tivesse feito moratória, e os EUA não tivessem feito nem uma moratória na vida. O governo Lagos (Chile) apoiou, mas o Lula sumiu. O Kirchner ficou uma fera com isso durante um ano e meio. Agora, o gasoduto Venezuela-Brasil, que desemboca na Argentina, está mudando esta relação. O problema é sério. Quando você tem uma política externa que caminha para um lado, e um discurso econômico interno que caminha para o outro, essa esquizofrenia se materializa nos resultados.
Valor: E a atuação da Petrobras isolada nesses países, também não cria problemas?
Darc: Cria um problema sério. A Petrobras se comportava nesses países como se fosse uma multinacional do petróleo. Não se comportava como se fosse uma empresa brasileira, do Estado brasileiro, operando nesses mercados. O que exige dela uma relação diferenciada com esses países. Ela não pode ter a mesma relação que uma Total (petroleira francesa privada). Ela não é uma empresa de mercado. A Petrobras, apesar de se dizer empresa de mercado, tem mais de 50% do capital de controle na mão do Estado brasileiro.
Valor: Por causa disso tem que adotar comportamento de relações públicas, sem se preocupar com resultados?
Darc: Ela tem de ter um comportamento atrelado à política externa do Brasil. Ela não pode ter sua própria política. Porque é uma empresa de Estado. Aliás, qualquer empresa de Estado em operação no mundo leva em consideração isso. Aliás, as empresas privadas levam em consideração isso. Não operam desarticuladas dos Estados nacionais. Nenhuma empresa americana opera no Brasil sem levar suas questões para o governo americano.
Valor: Quais foram as consequências da atuação da Petrobras como multinacional na América do Sul?
Darc: Foram complicadas na Argentina, na Bolívia. Agora é que estão se estruturando, porque ela está operando de acordo com os interesses articulados pelo Estado. No início do governo Lula, no conselho de administração da Petrobras argentina havia um membro amicíssimo do Meném. E já estávamos no governo Kirchner.
Valor: O que é esta integração latino-americana do ponto de vista macro?
Darc: No mundo de hoje não existe espaço para se operar com pequenos países. A tecnologia exige escala. Tem que ter mercado para poder desenvolver tecnologia. Qual a razão do sucesso da China e da Índia que ninguém fala? É o fato de que têm mercado. Um mercado potencial enorme, uma vantagem comparativa populacional em relação ao resto. As pessoas não conseguem entender isso.
Valor: E como é que isso se vincula à questão da integração?
Darc: Para aspirarmos a ser centro, temos que nos integrar. Apesar de o Brasil ser um país com enorme potencial, ter uma população de 185 milhões de pessoas, um mercado dessa dimensão e um território de 8,5 milhões de metros quadrados, o país ainda não tem capacidade de sozinho articular um projeto capaz de levá-lo para o centro. Os demais países da América do Sul, nem se fala. A única saída é nos integrarmos. Separados não vamos a lugar nenhum. Juntos podemos ir a algum lugar, não sei qual.
Valor: Há uma reação dos governos mais à direita a essas democracias de esquerda recém-instaladas na América Latina. Pode haver uma reação americana?
Darc: A questão americana é outra. O projeto neoliberal traçado para a América Latina fracassou. Os resultados na América do Sul mostram isso nos últimos anos. Onde você observa picos de crescimento hoje é nos espaços onde a doutrina americana foi contestada. É na Venezuela, que foi a maior taxa de crescimento do mundo ano passado, e na Argentina, que é a terceira. E o modelo chinês, que é o modelo de crescimento mais exitoso no mundo de hoje, é o modelo claramente contestador dos princípios do neoliberalismo.
Valor: O que visa essa integração?
Darc: A criação de um único mercado que seja capaz de competir com o mundo em igualdade de condições.
Valor: A posição de Evo Morales com relação à Petrobras e outras petroleiras não complica um projeto de integração?
Darc: Eu não acredito em posições de competição, acredito em cooperação. Mas vamos partir da premissa que o Adam Smith estivesse certo. Que os liberais de origem (do início do século XX) estivessem certos, e que cada um cuidasse de seu interesse da forma mais egoísta possível, que há uma mão invisível que tudo organiza e tudo estrutura, que faz com que as coisas avancem. Este é o discurso deles. É o discurso do Adam Smith. É uma visão protestante. Os Estados nacionais vivem em estado de natureza. Não há um Leviatã que os organize. O que estou querendo é dizer é que na América do Sul trabalhamos para criar um megaestado, um Leviatã que nos organize, de tal forma que a Bolívia vai entender que os interesses da Bolívia não são exclusivamente interesses da Bolívia, mas da América do Sul.